Crítica do filme Elis

“A dor e a delícia” foi como o diretor Hugo Prata definiu a responsabilidade de fazer sua estreia atrás da câmeras com um filme sobre uma das personagens mais icônicas da história brasileira. E, de fato, podemos perceber que Elis é um filme que carrega esta resposta dentro da sua concepção de longa-metragem como um todo, e também em seus aspectos técnicos. Ele apresenta alguns problemas e,mesmo assim, talvez não estrague a experiência de ver Elis Regina nas telonas.

Apesar de ser definido como cinebiografia, o próprio diretor foge desta palavra, pois uma história tão grandiosa, cheia de detalhes importantes e pessoas importantes, como foi a de Elis Regina, jamais caberia em um filme de duas horas. O recorte temporal do longa-metragem se dá inicialmente com a chegada da cantora ao Rio de Janeiro, em 1964 e, no mesmo dia, o golpe militar se instaurava no Brasil. O filme utiliza, obviamente, a carreira da cantora como um fio condutor e, a partir disso, mostra um pouco do que se conhece sobre Elis.

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Mas um dos problemas do roteiro é que ele também se baseia muito nos homens que fizeram parte da vida de Elis. Isso se torna um problema ao longo da obra, pois coloca a intérprete para um papel secundário muitas vezes e também apresenta suas características marcantes de uma forma pejorativa. Muitas vezes o seu temperamento forte, de uma mulher que tomava a frente em uma época extremamente machista, era apresentando como se a cantora estivesse fosse apenas uma pessoa histérica. Além disso, o longa tenta apresentar uma seleção dos fatos mais importantes e acaba pecando na qualidade de momentos que precisavam ser mais detalhados. Aparentemente, o filme tem um resumo acelerado até quase o final e os últimos 30 minutos do filme se tornam aquilo que ele deveria na totalidade.

O elenco, muito bem escolhido, tem Andreia Horta na interpretação da Elis. Nas cenas icônicas da cantora apresentando seus sucessos, a atriz conseguiu destacar muito bem os trejeitos e as emoções da intérprete e faz com que a dublagem não fique forçada ou esquisita como em outras cinebiografias de cantores. Porém, nas cenas fora dos palcos, a atriz acaba abusando de características de Elis Regina, com a risada por exemplo, soando bastante falso e exagerado. Outros atores, como Gustavo Machado, Caco Ciocler, Lúcio Mauro Filho e Rodrigo Pandolfo fazem seus papéis com firmeza e boa interpretação. O grande destaque fica por conta de Júlio Andrade, que no papel de Lennie Dale, consegue incorporar a personagem e realizar naturalmente a figura marcante do dançarino e cantor.

A fotografia do filme é bonita, mas o enquadramento muito aproximado em diversas cenas acaba descaracterizando uma tentativa de criar o ambiente dos anos 60 e posteriores. Isso acaba deixando o espectador com a sensação de que falta algo quando enxerga um figurino bem elaborado, bem como as maquiagens e penteados, mas o ambiente sem estar complemente identificado.

Elis é um filme bonito, que aposta na simplicidade para cativar o público. O roteiro é superficial com alguns defeitos marcantes, mas que consegue agradar os ouvidos de quem aprecia a Música Popular Brasileira e, principalmente, Elis Regina. Apesar de errar em algumas escolhas, o elenco e a própria força da personagem principal faz com que o filme valha o ingresso e a pipoca.

Nota: 3,5

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Lucas Schardong

Estudante de jornalismo. Hobbit, portador de uma das peças da TriForce e mochileiro das galáxias. Ajudante de encanador nas horas vagas. Seguidor da filosofia "Don't Panic!".